quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O CASO DOS IRMÃOS NAVES, UM GRAVE ERRO JUDICIÁRIO

Ocorreu nos anos trinta
Essa história lamentável
É comum que ao ler se sinta
Uma revolta notável
Na mineira Araguari
Se passou, segundo li
A luta de dois irmãos
Pra provar a inocência
E acabar c'a penitência
De corretos cidadãos

Trinta e sete era o ano
Ditadura vigorava
Benedito Caetano
Com os Naves trabalhava
Joaquim e Sebastião
Compraram um caminhão
Junto com o primo e sócio
Lá nas terras das Gerais
Comércio de cereais
Eles tinham por negócio

Ambicioso rapaz
Da ajuda do pai dispôs
Benedito a compra faz
Dum grande estoque de arroz
Procurando ter mais renda
Via lucro na revenda
O comerciante astuto
Previsão não confirmada
Porque teve a derrocada
Dos preços de seu produto

O grão perdendo valor
De um modo acelerado
Obrigou o tal senhor
A vender o armazenado
Com um prejuízo tal
Que vultoso capital
Pra ele não bastaria
Noventa contos de réis
Não chegavam nem aos pés
Do que ainda ele devia

Encontrando-se insolvente
Em grande dificuldade
Na surdina, de repente
Dá o fora da cidade
Levando todo o dinheiro
Os Naves, mais que ligeiro
Do sumiço dão notícia
Teria o primo morrido?
Preocupados, o ocorrido
Comunicam à polícia

Ante o que a dupla relata
Os trabalhos têm início
A partir daquela data
Começava o suplício
Era assim nosso Brasil
O delegado civil
Acabou sendo trocado
Um tenente militar
De Belô foi comandar
O assunto investigado

Esse tal Chico Vieira
De valente tinha fama
Lá da Capital Mineira
Para Araguari se chama
Mui temida era a figura
Truculência e tortura
Predicados outros, vários
Por agir com insensatez
Causou o maior, talvez
Dos erros judiciários

Pouco após ter assumido
Ele já tem dois eleitos
Fica quase convencido
Que os Naves são sujeitos
Responsáveis pela morte
Sela-se, portanto, a sorte
Dos irmãos, erroneamente
Pelas mãos da autoridade
Quanta desumanidade
Contra sangue inocente

Segundo Vieira, os dois
Ter matado poderiam
Consumando, eles depois
A grana dividiriam
Por conta dessa suspeita
A prisão deles é feita
Para o interrogatório
Ingressam nesse momento
No rumo do fel, tormento
Um caminho tão inglório

Em busca da confissão
As torturas mais terríveis
O tenente foi vilão
Daqueles mais desprezíveis
Os dois homens tão pacatos
Sofriam graves maus tratos
Em celas sujas, precárias
Sem comida, água e sol
Só pra começar o rol
Das maldades sanguinárias

O Vieira foi cruel
Dessa culpa estava certo
Lambuzava eles de mel
E mandava a campo aberto
Pra lhes infligir o medo
Amarrados no arvoredo
Sem ter dó, ele castiga
Pra sofrerem com picada
E também com ferroada
De abelha e de formiga

Muitos tiros, ameaça
Pra minar a resistência
Seus meios, mais que pirraça
Uma baita intransigência
Verdadeira extorsão
Resultou na confissão
De crime não cometido
Perduravam as agruras
De infelizes criaturas
Seu viver era sofrido

Ademais, familiares
Como filhos, genitora
Inclusive os seus pares
Sentem a força opressora
Seus algozes são perversos
Os abusos mui diversos
Ocorrem nas ditas celas
As esposas e Don'Ana
Vítimas da mente insana
Abusadas foram elas

A mãe, Ana Rosa Naves
Mesmo penando bastante
Com as atitudes graves
Do delegado pedante
Foi firme pra defender
Nada, é claro, foi dizer
Contra seus amados filhos
Que viviam na cadeia
Uma cena triste e feia
Qual bandidos maltrapilhos

Procurava um defensor
A velhinha, sem preguiça
Conversou com o doutor
Pra brecar a injustiça
Com João Alamy Filho
Viu até certo empecilho
Pois c'a versão estatal
Ele era concordante
Mas mudou no justo instante
Em que viu a mesma mal

Tiveram muita coragem
E foram perseverantes
Pra tirar da carceragem
Aqueles não-meliantes
Trazendo à tona a verdade
Restaurando a liberdade
De quem paga sem dever
Longe estava o livramento
O final do sofrimento
Não iria acontecer

Em trinta e oito acontece
O julgamento primeiro
A verdade já aparece
Na fala de prisioneiro
Das torturas os relatos
Deixam bem estupefatos
Os integrantes do júri
Com seis fotos favoráveis
Inocenta os miseráveis
Mas nada, porém, que dure

Tempos de Estado Novo
De pouca democracia
Nem sempre a voz do povo
Era o que vigoraria
Vieira de tudo apronta
E de novo o desaponta
O segundo julgamento
O placar foi repetido
Seis a um e absolvidos
Não finda o confinamento

Júri sem soberania
Disse a Constituição
Tribunal revisaria
Alterando a decisão
Condenou a vários anos
Mais de quinze, pobres manos
Do Estado era a resposta
Precisava elucidar
Um "crime" solucionar
E por isso a pena imposta

Inocentes duas vezes
Mesmo assim encarcerados
Oito anos e três meses
Para serem libertados
Por condutas exemplares
Podiam voltar aos lares
Devido à condicional
Em quarenta e oito morre
O tenente qu'era um "porre"
De derrame cerebral

A tortura enfraqueceu
Joaquim Naves, o mais jovem
Bem doente, faleceu
Suas condições comovem
Num asilo, coisa triste
Muito frágil, não resiste
Em quarenta e oito ainda
Pra Sebastião, porém
Desistir jamais convém
A batalha não se finda

Pra limpar a sua barra
E também a de Joaquim
O cabra, firme, se agarra
Numa esperança sem fim
Só mesmo encontrando o "morto"
Ele teria conforto
Pra poder morrer em paz
Pela alma do irmão
E por si, Sebastião
Começou correr atrás

Nessas voltas do destino
Benedito surge vivo
O seu ato vil, malino
Que foi por demais nocivo
Reparar era preciso
Eis que o esperado aviso
Finalmente foi passado
Foi um primo de "Tião"
Chamado Zé Prontidão
Autor do comunicado

Seguindo o que disse a fonte
Foi atrás do "falecido"
Num lugar em Nova Ponte
Onde foi reconhecido
Era a casa de seus pais
Junto com policiais
Vai o irmão sobrevivente
Sebastião, alívio puro
Depois de calvário duro
Conclui a missão, contente

Benedito, logo, jura
Não saber dos transcorridos
O suplício, a amargura
Por seu ato produzidos
Foi castigo? É mistério
Em um acidente aéreo
A família perde inteira
A tragédia sem tamanho
Foi um fato muito estranho
Dessa história verdadeira

Em cinquenta e três, enfim
Pela via oficial
Para os Naves teve fim
Essa pecha criminal
Veio a absolvição
Não pesava acusação
De qualquer modalidade
Somente restou buscar
O Estado indenizar
A enorme barbaridade

Junto com o advogado
Muito esforço, muito empenho
Para ser indenizado
Sebastião foi ferrenho
Seu intento se arrastou
Ao final se processou
O Estado pelo engano
Já no ano de sessenta
Alivia sua tormenta
Pr'um final de vida humano

Fazendo-se o pagamento
C'os recursos do Erário
Pra família um alento
Em forma de numerário
Isso apenas minimiza
Muito pouco ameniza
Tanto sofrer, tanta dor
Pois das perdas resultantes
Dos maus tratos humilhantes
Não se mensura valor

Em sessenta e quatro, parte
Sebastião, luta em pessoa
Desta dimensão, destarte
Se despede numa boa
Don'ana a matéria deixa
Dois anos após sem queixa
De morrer injustiçada
Seu advogado João
Lega em livro a narração
Da história eternizada

Virou filme no cinema
A jornada dos rapazes
Pra resolver o problema
Vejam do que são capazes
Os agentes estatais
Direitos fundamentais
Desrespeitam sem vacilo
Eita erro sem desculpa
Atitude assim preocupa
Não dá pra ficar tranquilo

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